quarta-feira, 22 de junho de 2016

79 - Imigração no Império

Um texto sobre imigração para ajudá-los na prova
No Segundo Reinado, percebemos que as estruturas das relações de trabalho no Brasil foram sofrendo importantes transformações. Mediante a insistente pressão das autoridades britânicas, o governo imperial foi incorporando ações que impediam a expansão do trabalho escravo. Já com a expressa proibição do tráfico negreiro, em 1850, os grandes cafeicultores foram tendo enormes dificuldades para adquirir mão de obra capaz de suprir a sua demanda.

Uma das primeiras alternativas lançadas para tal impasse foi o chamado tráfico interprovincial de escravos. Nesse caso, os grandes fazendeiros da região sudeste adquiriam os escravos ociosos localizados na região nordeste. A disponibilidade dessa mão de obra ocorreu devido à crise agrícola que atingiu os produtores nordestinos, principalmente pela diminuição do preço obtido na comercialização da cana de açúcar, do algodão e do fumo.

Segundo algumas estimativas, essa prática foi responsável pelo deslocamento de aproximadamente 200 mil escravos pelo território brasileiro. Contudo, essa solução logo se mostrou ineficaz com a crescente expansão das lavouras de café. Em pouco tempo, a grande demanda por escravos acabou os transformando em uma mercadoria de alto valor que encurtava o lucro dos cafeicultores. Dessa forma, o emprego da mão de obra imigrante europeia se transformou na alternativa mais barata e viável.



O primeiro a empregar a mão de obra assalariada dos europeus foi o senador e fazendeiro Nicolau de Campos Vergueiro. Entre os anos de 1847 e 1857, ele trouxe várias famílias de origem portuguesa, alemã, suíça e belga para trabalharem em sistema de parceira. Nesse tipo de acordo, o proprietário de terras pagava todas as despesas com a viagem e a acomodação dos empregados. Ao chegar aqui, o colono estrangeiro trabalhava até saldar suas dívidas e participava nos lucros obtidos na plantação.

Em pouco tempo outros fazendeiros copiaram essa mesma estratégia na obtenção de mão de obra. Vale destacar que, acostumados com a exploração dos escravos, muitos cafeicultores impuseram condições de trabalho desvantajosas aos colonos. A partir da década de 1870, a entrada de trabalhadores europeus no Brasil passou a ser oficialmente organizada pelo governo. Aproveitando das conturbações políticas no Velho Mundo, o império propagandeava as oportunidades de trabalho existentes no Brasil.

Além de atender uma demanda econômica, a entrada de imigrantes no Brasil integrava um ambicioso projeto de engenharia social dos intelectuais dessa época. Tomando a Europa como um grande modelo a ser copiado, muitos pensadores e políticos acreditavam que a imigração abriria portas para o gradual “branqueamento” da população brasileira. Nesse sentido, projetava-se a expectativa racista de diminuir a “negativa” presença de negros e mulatos na formação do povo brasileiro.

Por Rainer Sousa

78 - Segundo Reinado

Um texto para ajudá-los na prova

O Segundo Reinado iniciou-se com a declaração de maioridade de Dom Pedro II, realizada no dia 23 de julho de 1840. Na época, o jovem imperador tinha apenas quatorze anos de idade e só conseguiu ocupar o posto máximo do poder executivo nacional graças a um bem arquitetado golpe promovido pelos grupos políticos liberais. Até então, os conservadores (favoráveis à centralização política) dominaram o cenário político nacional.


Antes do novo regime monárquico, o período regencial foi caracterizado por uma política conservadora e autoritária que fomentou diversas revoltas no Brasil. As disputas políticas do período e o desfavor promovido em torno do autoritarismo vigente permitiram que a manobra em favor de Dom Pedro de Alcântara tivesse sustentabilidade política. Nos quarenta e nove anos subsequentes o Brasil esteve na mão de seu último e mais longevo monarca.

Para contornar as rixas políticas, Dom Pedro II contou com a criação de dispositivos capazes de agraciar os dois grupos políticos da época. Liberais e conservadores, tendo origem em uma mesma classe socioeconômica, barganharam a partilha de um poder repleto de mecanismos onde a figura do imperador aparecia como um “intermediário imparcial” às disputas políticas. Ao mesmo tempo em que se distribuíam ministérios, o rei era blindado pelos amplos direitos do irrevogável Poder Moderador.

A situação contraditória, talvez de maneira inesperada, configurou um período de relativa estabilidade. Depois da Revolução Praieira, em 1847, nenhuma outra rebelião interna se impôs contra a autoridade monárquica. Por quê? Alguns historiadores justificam tal condição no bom desempenho de uma economia impulsionada pela ascensão das plantações de café. No entanto, esse bom desempenho conviveu com situações delicadas provindas de uma economia internacional em plena mudança.

O tráfico negreiro era sistematicamente combatido pelas grandes potências, tais como a Inglaterra, que buscava ampliar seus mercados consumidores por aqui. A partir da segunda metade do século XIX, movimentos abolicionistas e republicanos ensaiavam discursos e textos favoráveis a uma economia mais dinâmica e um regime político moderno e inspirado pela onda republicana liberal.

Após o fim da desgastante e polêmica Guerra do Paraguai (1864 – 1870), foi possível observar as primeiras medidas que indicaram o fim do regime monárquico. O anseio por mudanças parecia vir em passos tímidos ainda controlados por uma elite desconfiada com transformações que pudessem ameaçar os seus antigos privilégios. A estranha mistura entre o moderno e o conservador ditou o início de uma república nascida de uma quartelada desprovida de qualquer apoio popular.

Por Rainer Sousa

77 - Guerra do Paraguai

Um bom texto da Guerra do Paraguai para auxiliá-los na prova.

No século XIX, as nações americanas emancipadas após a crise do sistema colonial se lançaram ao desafio de estabelecerem a soberania política e econômica de seus territórios. Essa seria uma tarefa bastante difícil, pois passados séculos de dominação colonial, esses novos países teriam que enfrentar os desafios estabelecidos pelo capitalismo industrial e financeiro do período.
Segundo alguns estudiosos, o processo de independência das nações latino-americanas não significou o fim da subserviência política e da dependência econômica. Sob outros moldes, esses países ainda estavam presos a instituições corruptas e à antiga economia agroexportadora. Contrariando essa tendência geral, durante o século XIX, o Paraguai implementou um conjunto de medidas que buscavam modernizar o país.

Nos governos de José Francia (1811-1840) e Carlos López (1840-1862) o analfabetismo foi erradicado do país e várias fábricas foram instaladas com o subsídio estatal. Além disso, melhorou o abastecimento alimentício com uma reforma agrária que reestruturou a produção agrícola paraguaia ao dar insumos e materiais para que os camponeses produzissem. Esse conjunto de medidas melhorou a condição de vida da população e fez surgir uma indústria autônoma e competitiva.

No ano de 1862, Solano López chegou ao poder com o objetivo de dar continuidade às conquistas dos governos anteriores. Nessa época, um dos grandes problemas da economia paraguaia se encontrava na ausência de saídas marítimas que escoassem a sua produção industrial. Os produtos paraguaios tinham que atravessar a região da Bacia do Prata, que abrangia possessões territoriais do Brasil, Uruguai e Argentina.

Segundo alguns historiadores, essa travessia pela Bacia do Prata era responsável, vez ou outra, pela deflagração de inconvenientes diplomáticos entre os países envolvidos. Visando melhorar o desempenho de sua economia, Solano pretendia organizar um projeto de expansão territorial que lhe oferecesse uma saída para o mar. Dessa maneira, o governo paraguaio se voltou à produção de armamentos e a ampliação dos exércitos que seriam posteriormente usados em uma batalha expansionista.

No entanto, outra corrente historiográfica atribuiu o início da guerra aos interesses econômicos que a Inglaterra tinha na região. De acordo com essa perspectiva, o governo britânico pressionou o Brasil e a Argentina a declararem guerra ao Paraguai alegando que teriam vantagens econômicas e empréstimos ingleses caso impedissem a ascensão da economia paraguaia. Com isso, a Inglaterra procurava impedir o aparecimento de um concorrente comercial autônomo que servisse de modelo às demais nações latino-americanas.

Sob esse clima de tensão, a Argentina tentava dar apoio à consolidação de um novo governo no Uruguai favorável ao ressurgimento do antigo Vice Reinado da Prata, que englobava as regiões da Argentina, do Paraguai e Uruguai. Em contrapartida, o Brasil era contra essa tendência, defendendo a livre navegação do Rio da Prata. Temendo esse outro projeto expansionista, posteriormente defendido por Solano López, o governo de Dom Pedro II decidiu interceder na política uruguaia.

Após invadir o Uruguai, retaliando os políticos uruguaios expansionistas, o governo brasileiro passou a ser hostilizado por Solano, que aprisionou o navio brasileiro Marquês de Olinda. Com esse episódio, o Brasil decidiu declarar guerra ao Paraguai. A Inglaterra, favorável ao conflito, concedeu empréstimos e defendeu a entrada da Argentina e do Uruguai na guerra.

Em 1865, Uruguai, Brasil e Argentina formaram a Tríplice Aliança com o objetivo de aniquilar as tropas paraguaias. Inicialmente, os exércitos paraguaios obtiveram algumas vitórias que foram anuladas pela superioridade do contingente militar e o patrocínio inglês da Tríplice Aliança.

Mesmo assim, as boas condições estruturais e o alto grau de organização dos exércitos paraguaios fizeram com que a guerra se arrastasse por cinco anos. Somente na série de batalhas acontecidas entre 1868 e 1869, que os exércitos da Tríplice Aliança garantiram a rendição paraguaia.

O saldo final da guerra foi desastroso. O Paraguai teve cerca de 80% de sua população de jovens adultos morta. O país sofreu uma enorme recessão econômica que empobreceu o Paraguai durante muito tempo. Com o final da guerra, o Brasil conservou suas posses na região do Prata.

Em contrapartida, o governo imperial contraiu um elevado montante de dívidas com a Inglaterra e fez do Exército uma instituição interessada em interferir nas questões políticas nacionais. A maior beneficiada com o conflito foi a Inglaterra, que barrou o aparecimento de uma concorrente comercial e lucrou com os juros dos empréstimos contraídos.
Por Rainer Sousa
Mestre em História

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

76 - O Estado Islâmico é islâmico sim

O ESTADO ISLÂMICO É ISLÂMICO SIM

A primeira coisa que os chamados líderes moderados do maometismo (islamismo) e os intelectuais, os políticos e a mídia politicamente correta do Ocidente dizem quando ocorre um atentado terrorista praticado por maometanos (muçulmanos) radicais é que esses terroristas não são de fato islâmicos, que não seguem o verdadeiro islamismo, que os seus atos não têm respaldo no Alcorão e que seriam condenados por Maomé. O Islã, afirmam os muçulmanos "moderados", é uma religião da paz e tolerância. O terrorismo islâmico é resultado de uma leitura distorcida do Alcorão, insistem.

Acontece que existem sim diversos versículos nos capítulos (suras) do Alcorão que respaldam as ações do Estado Islâmico e de outras organizações revolucionárias praticantes do jihadismo (luta armada maometana), como a Al-Qaeda e os grupos do movimento talibã. O Novo Testamento, que contém a essência da doutrina cristã, também é objeto de controvérsias teológicas e de várias interpretações (basta lembrar a cisão entre católicos e protestantes e entre os próprios protestantes), mas não há nessa coleção de livros a defesa da violência como aparece tão frequentemente no Alcorão. Além disso, o Novo Testamento é considerado pelos cristãos um livro escrito por homens inspirados por Deus, com trechos que reproduzem as palavras de Jesus, a encarnação de Deus. Mesmo divinamente inspirados, esses homens estavam sujeitos a erros ou incompreensão da mensagem original. O Alcorão, por sua vez, é considerado pelos maometanos (muçulmanos) a reprodução literal das palavras de Deus transmitidas a Maomé, seu mensageiro, por intermédio do anjo Gabriel. Ali estão contidas as ordens diretas de Deus, segundo o islamismo. E entre essas ordens ou orientações está a defesa da violência contra não muçulmanos de uma forma disseminada que não existe no Novo Testamento. É difícil sustentar que o conteúdo desses textos alcorânicos precisa ser analisado de forma relativa ou que precisam ser contextualizados. Eles podem sim justificar a violência do terrorismo islâmico contra não muçulmanos e contra os próprios muçulmanos. 

Veja abaixo os versículos que justificam essa violência. Eles foram retirados da aclamada tradução do Alcorão feita diretamente do árabe por Mansour Challita (Editora Associação Internacional Gibran, sem data). Entre parênteses aparece o número do capítulo ou sura, seguido do versículo:

1. O ALCORÃO, A PALAVRA DE DEUS

Revelamos-te o Livro com a verdade para que julgues entre os homens conforme o que Deus te mostrou. Mas não sejas para os pérfidos um defensor. (4: 105)

Enviamos-lhes um Livro sabiamente elucidado: uma orientação e uma misericórdia para os crentes. (7: 52)

É uma blasfêmia atribuir este Alcorão a outro que não a Deus. Ele é a confirmação do que o precedeu e a elucidação do Livro incontestável do Senhor dos mundos. (10: 37)

Procuraria eu um árbitro fora de Deus quando é Ele que vos revelou o Livro com todos os detalhes? Aqueles a quem revelamos o Livro sabem que ele emana de teu Senhor, com a verdade. Não sejas, pois, um dos que duvidam. (5: 114)

Perfeitas são as palavras de teu Senhor, na justiça e na verdade. Ninguém as pode modificar. Ele ouve tudo e sabe tudo. (5: 115)

Será que não meditam sobre o Alcorão? Se não fosse enviado por Deus, encontrariam nele muitas contradições. (4: 82)

E obedecei a Deus e obedecei ao Mensageiro e acautela-vos. Se virardes as costas e vos afastardes, sabei que a Nosso Mensageiro só incumbe transmitir claramente a mensagem. (5: 92)

2. O CONVÍVIO COM OS NÃO MUÇULMANOS

Ó vós que credes, não tomeis por aliados os judeus e os cristãos. Que sejam aliados uns dos outros. Quem de vós os tomar por aliados é deles. Deus não guia os iníquos. (5: 51)

Ó vós que credes, não adoteis por amigos os que, tendo recebido o Livro antes de vós, tratam vossa religião de divertimento e objeto de escárnio, e não adoteis por amigos os descrentes. E temei a Deus se sois crentes. (5: 57)

Desejariam que fôsseis descrentes como eles: então todos seríeis iguais. Não tomeis amigos dentre eles até que emigrem para Deus. Se virarem as costas e se afastarem, capturai-os e matai-os onde quer que os acheis. E não tomeis nenhum deles por confidente ou aliado. (4: 89)

Aqueles que preferem a amizade dos descrentes à dos crentes, que esperam? A grandeza? Toda grandeza pertence a Deus. (4: 139)

Ó vós que credes, não prefirais a amizade dos descrentes à dos crentes. Quereis dar a Deus uma prova pública contra vós? (4: 144)

Deus vos recomendou no Livro de não vos sentardes com os que conversam de Suas revelações, rejeitando-as e desrespeitando-as até que mudem de assunto. Se o fizerdes, sereis como eles. Deus juntará na Geena [Inferno] os hipócritas e os descrentes. (4: 140)

3. A GUERRA SANTA E O TRATAMENTO AOS NÃO MUÇULMANOS

Combate, pois, pela causa de Deus. És responsável apenas por ti mesmo. E exorta os crente. Queira Deus  conter a força dos descrentes! Deus é mais forte e o mais rigoroso no castigo. (4:84)

Esses versículos, em especial, condenam os muçulmanos moderados ou acomodados e justificam a militância violenta dos jihadistas: Não há igualdade entre os crentes que permanecem em casa, sem serem inválidos, e os que combatem e arriscam bens e vida a serviço de Deus. Deus eleva os que lutam por Ele com seus bens e sua vida um grau acima dos outros. A todos, Deus promete excelente recompensa, mas conferirá aos combatentes paga superior à dos que permanecem em casa. (4: 95). Ó vós que credes, que vos sucede quando vos dizem: "Parti ao combate pela causa de Deus" e vós permaneceis imóveis como pegados à terra? Preferis a vida terrena ao Além? Os gozos da vida terrena são insignificantes comparados com os gozos do Além (9: 38). Se não combaterdes, Deus vos imporá um castigo doloroso e vos substituirá por outros, e em nada vós O prejudicareis. Deus tem o poder sobre tudo. (9: 39).

Ó vós que credes, temei a Deus e procurai aproximar-vos d'Ele e lutai pela Sua causa. E possais vencer. (5: 35)

Ó vós que credes, quando encontrardes os descrentes prontos para a guerra, não lhes volteis as costas. (8: 15). Quem lhes voltar as costas - a menos que seja por estratagema ou para juntar-se a outro grupo - incorrerá na ira de Deus, e sua morada será a Geena [Inferno] (8: 16). Na realidade, não foste vós que o matastes: foi Deus quem os matou; e não foste tu que atiraste as flechas quando atirastes: foi Deus quem aturou. Fê-lo para conferir aos crentes um justo benefício. Ele ouve tudo e sabe tudo. (8: 17) Este versículo justifica atentados terroristas como tendo sido guiados pela mão de Deus.

O castigo dos que fazem a guerra a Deus e a seu Mensageiro e semeiam a corrupção na terra é serem mortos ou crucificados ou terem as mãos e os pés decepados, alternadamente, ou serem exilados do país: uma desonra neste mundo e um suplício no Além (5: 33) Este versículo justifica as atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico sobre os prisioneiros não muçulmanos.

Dize aos descrentes que, se se emendarem, o passado ser-lhes-á perdoado. E se reicindirem, que contemplem o exemplo dos antigos! Deus os observa. (8: 38). E combatei-os até que não haja mais idolatria e que a religião pertença exclusivamente a Deus. Se desistirem, Deus observa o que fazem. (8: 39)

4. MATAR MUÇULMANOS

Não pode um crente matar outro crente, a não ser por engano (4: 92). Quem matar um crente com premeditação, seu castigo será a Geena [Inferno] onde permanecerá para todo o sempre, e a cólera de Deus, e a Sua maldição, e um terrível suplício (4: 93). A morte de muçulmanos por outros muçulmanos pode ser justificada como acidental ("baixas colaterais", "fogo amigo"). Mas os jihadistas podem também dizer que os muçulmanos mortos não eram verdadeiros muçulmanos, que eram apóstatas ou traidores do islamismo.



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

75 - Tópicos de estudo da 5 etapa

Tópicos de estudo da 5 etapa

BRASIL

INDEPENDÊNCIA
PRIMEIRO REINADO
PERÍODO REGENCIAL
SEGUNDO REINADO E ABOLICIONISMO
QUEDA DA MONARQUIA
REPÚBLICA DA ESPADA

GERAL

DÉCADA SANGRENTA (ANOS 1860)
Guerras nacionalistas na Itália, EUA, México e Alemanha
Motivos, características e consequências desses conflitos nacionalistas

IMPERIALISMO NA ÁFRICA

FONTES DE ESTUDO

ESQUEMAS DAS AULAS
CADERNO 1 FRENTE A (cap. 1,2 e 3) e FRENTE B (cap. 1 e 2)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

73 - O imperialismo

1. A ORDEM INTERNACIONAL EM 1870-1914

Em 1870-1914, no período da grande aceleração capitalista global, a ordem internacional possuía as seguintes características:

1.1 Anarquia internacional em um quadro multipolar

Em 1870-1914, não existiam organismos internacionais, como a ONU, que buscassem a paz global (por meio do consenso e da negociação diplomática) e a segurança coletiva (por meio do compromisso de ação conjunta dos países contra potências agressoras). Nem tampouco havia uma ou duas superpotências que pudessem impor a ordem em um sistema global. O poder internacional estava distribuído desigualmente entre um reduzido grupo de grandes potências imperialistas rivais, destacando-se as europeias (sobretudo Grã-Bretanha, França, Alemanha e Rússia), mas incluindo dois Estados não europeus em rápida ascensão, os EUA e o Japão, em um sistema mundial multipolar.

1.2 Supremacia mundial do Ocidente sob liderança da Europa

Em 1870-1914, o Ocidente havia se consolidado como a civilização mais poderosa do mundo em termos econômicos e militares. A maior parte da Ásia e da África estava sob o domínio colonial ocidental ou sob influência cultural do Ocidente. De fato, diversos hábitos (como o vestuário) e instituições (como constituições e parlamentos) consideradas ocidentais foram adotados por povos asiáticos e africanos. Muitos estudiosos falam em ocidentalização do mundo, causada pelos contatos comerciais e pelo imperialismo ocidental. No entanto, a ocidentalização foi sempre um fenômeno parcial, mais limitado às elites econômicas e intelectuais da Ásia e da Ásia. A grande maioria das populações não ocidentais continuou seguindo suas culturas nativas, principalmente seus aspectos religiosos (islamismo, hinduísmo, budismo, xintoísmo, animismo entre outros). Na verdade, a história das sociedades da Ásia e da África em 1870-1914, como em todo século XX, foi em grande medida a história do confronto cultural entre os defensores da ocidentalização (que a consideravam necessária para a modernização) e seus opositores (que a associavam com a dominação estrangeira). Contudo, se ocidentalização for entendida como a expansão do poder econômico e militar do Ocidente sobre o mundo, não resta dúvida que ela foi o um dos fenômenos mais importantes do período. Nenhuma outra civilização tinha condições, na época, de competir com o Ocidente nesses aspectos, nem mesmo o Japão.

Como antes e hoje, a civilização ocidental não possuía unidade política e estava dividida em diversos Estados com composição étnica diferente, muitos com um histórico de intensa rivalidade e de guerras entre si. Em 1870-1914, o núcleo do poder econômico e militar do Ocidente continuava sendo a Europa, ou mais precisamente suas grandes potências. As que tinham maior projeção global eram Grã-Bretanha (uma monarquia parlamentar liberal), França (uma república liberal) e Alemanha (uma monarquia constitucional autoritária com liberalismo limitado). A Rússia (outra monarquia autoritária) tinha um grande poder na Europa e na Ásia, mas era pouco influente na África e na América. A Áustria-Hungria (monarquia constitucional autoritária) e a Itália (monarquia parlamentar) eram consideradas as menores das grandes potências, mais importantes no contexto europeu. Os austro-húngaros tinham o seu campo de ação restrito ao Leste e Sudeste da Europa, ao passo que os italianos buscavam expandir seu poder no Mediterrâneo Oriental e no Norte da África.

Hegemonia britânica no capitalismo global e no imperialismo

A Grã-Bretanha era a maior potência econômica, naval e colonial do mundo, o que resultou em sua hegemonia no capitalismo global. Ela era o maior centro comercial e financeiro do planeta e, em razão do seu pioneirismo na Revolução Industrial, ela também possuía a supremacia industrial, posição que perdeu por volta de 1900, quando a sua produção industrial foi superada pela dos EUA e da Alemanha. O império colonial britânico também era o maior e mais rico do mundo (na verdade, foi o maior da história) e, em 1914, incluía, entre outros países, a Índia, o Canadá, a Austrália e a África do Sul. Embora o seu exército fosse relativamente pequeno e com uma qualidade que não superava o da Alemanha ou da França, a Grã-Bretanha era dona da maior e mais poderosa marinha de guerra da época. Com sua imensa frota e bases navais espalhadas por todos os continentes, ela controlava as principais rotas do comércio marítimo, assegurando a defesa do seu território contra invasões e o acesso às suas colônias e ao mercado mundial.

2. O IMPERIALISMO

O imperialismo é a tentativa de extensão do poder de um Estado para fora de suas fronteiras nacionais originais, com o objetivo de conquistar e incorporar novos territórios, ou de subordinar outros países aos seus interesses geopolíticos e econômicos. Nesse sentido, ele é um fenômeno antigo na história, surgindo com as primeiras civilizações. Quando bem-sucedido, o imperialismo gera o colonialismo – o domínio de um país ou povo por uma potência imperialista. O colonialismo costuma ser dividido em duas modalidades: (I) o colonialismo direto ou informal, quando a potência imperialista (metrópole) governa a colônia, que é dominada política e economicamente; e (II) o colonialismo indireto ou informal, quando um país é independente politicamente, mas tem sua economia controlada por uma potência imperialista, ou tem sua soberania limitada pelo poder de intervenção daquela potência. Esses países dependentes economicamente ou com pouca autonomia política são considerados semicolônias, protetorados ou áreas de influência estrangeira. Alguns estudiosos chamam o colonialismo informal econômico de neocolonialismo.

2.1 A intensificação do imperialismo em 1870-1914

O imperialismo não começou no século XIX e nem foi invenção da civilização ocidental ou do capitalismo. Contudo, a partir da segunda metade daquele século, ele foi intensificado pelas ações das potências ocidentais, beneficiadas pela sua superioridade industrial e financeira sobre a Ásia e a África. O resultado foi a criação de novos impérios coloniais e a ampliação de outros mais antigos, formais e informais, em uma escala mundial inédita. Diversas razões foram apontadas para explicar a expansão colonial desse período:

Motivos econômicos

As potências buscavam mercados consumidores para seus produtos industriais, fontes de matérias-primas baratas e áreas para o investimento de capitais. Como visto no Capítulo 4, essa procura foi intensificada a partir de 1870 pela Segunda Revolução Industrial (indústria química, eletricidade, petróleo) e pela formação do capitalismo financeiro e monopolista, caracterizado pela fusão do capital bancário com o capital industrial, pela formação dos oligopólios, cartéis (acordo entre empresas para dominar o mercado), trustes (fusão de grandes empresas formando uma maior) e holdings (controle acionário de várias empresas por outra), e pela crescente exportação de capital (empréstimos e investimentos internacionais). A Primeira Grande Depressão Mundial (1873-1896), caracterizada por queda dos preços, falências e pela adoção do protecionismo alfandegário, tornou mais urgente a busca desses mercados. Entretanto, a busca de colônias continuou mesmo depois que a crise foi superada e o Ocidente entrou em uma fase de expansão econômica, de prosperidade e de otimismo das elites e da classe média conhecida como Belle Époque (1896-1914).

Motivos políticos-ideológicos

O nacionalismo no Ocidente e no Japão criou a ideia de que uma nação, para ser forte e respeitada, precisava possuir um império colonial. Esse pensamento desenvolveu-se associado a outras justificativas ideológicas. O darwinismo social pregava que os indivíduos, as classes sociais, os povos e as raças estariam submetidas as leis da seleção natural e da sobrevivência do mais capaz. De acordo com essa visão, o mundo estaria dividido em países vencedores e países perdedores A evolução histórica da humanidade - quer dizer, sua evolução cultural, política, econômica e social - seria resultado da vitória dos povos e países mais fortes e capazes sobre os mais fracos e incompetentes. Haveria uma seleção natural, historicamente fundamentada, em que os melhores (Europa, EUA, Japão) se impõe sobre os piores (Ásia, África, América Latina). Portanto, as potências imperialistas tinham o direito - e mesmo o dever - histórico e natural de dominar os países coloniais para garantir a continuidade da evolução e do progresso humano. Entre os mais importantes ideólogos do darwinismo social está o sociólogo britânico Herbert Spencer (1820-1903). O darwinismo social reforçou o racismo, ou seja, a crença de que algumas raças são superiores a outras biologicamente e intelectualmente. O racismo foi amplamente utilizado para justificar o domínio ocidental (dos “brancos”) sobre os povos constituídos pelas “raças inferiores” (negros, amarelos, pardos). Outro argumento favorável ao imperialismo foi a missão civilizadora, a ideia de que as potências imperialistas representavam a civilização e a modernidade, ao passo que os países coloniais seriam caracterizados pela barbárie e o atraso. De acordo com esse raciocínio, os povos atrasados, por conta própria, seriam incapazes de alcançar o desenvolvimento em função de seu conservadorismo e limitações culturais. Assim, as potências imperialistas tinham o dever histórico de levar a civilização para esses países, libertando-os da ignorância e da pobreza. O colonialismo, portanto, seria benéfico porque exportaria o progresso para os países dominados. Um dos mais famosos defensores dessa ideia foi o escritor britânico, nascido na Índia, Rudyard Kipling (1865-1936), que escreveu do “ônus” ou “fardo do homem branco” em levar a civilização para povos ignorantes que resistiam em não aceitar o domínio colonial “progressista”.

2.2 O imperialismo na Ásia

Um fator decisivo para a intensificação do imperialismo ocidental no século XIX (e japonês a partir da década de 1890) foi a decadência de duas grandes potências do Oriente, o Império Chinês (a China da dinastia Qing ou Manchu) e o Império Turco Otomano. As razões do declínio do poder desses antigos impérios orientais são controversas, mas costumam ser associadas a uma incapacidade de acompanhar a modernização capitalista do Ocidente, o que teria deixado as potências asiáticas defasadas em termos tecnológicos, econômicos e militares. O conservadorismo político e cultural dos dirigentes e das elites do impérios orientais inviabilizou ou limitou as reformas necessárias para superar o seu atraso. A notável exceção ao processo de declínio asiático foi o Japão, onde a monarquia foi bem-sucedida na realização de reformas que aboliram o feudalismo e industrializaram o país, lançando as bases da modernidade capitalista japonesa. O Japão rapidamente transformou-se em uma potência imperialista moderna que passou a competir com o Ocidente por mercados e colônias no Extremo Oriente.

O Império Turco Otomano

Os turcos otomanos, originários da Ásia Central e seguidores do islamismo, criaram um dos mais poderosos impérios da Idade Moderna. Com capital em Constantinopla (que os turcos haviam tomado depois de destruírem o que restava do Império Bizantino), o Império Turco Otomano em seu apogeu no século XVI dominava os Bálcãs e a maior parte dos países árabes do Oriente Médio e do Norte da África. Entre os territórios que os turcos controlaram até a Primeira Guerra Mundial estavam as três principais cidades santas do Oriente Médio: Meca e Medina (sagradas para os muçulmanos) e Jerusalém (sagrada para os judeus, cristãos e muçulmanos). Chefiado por um monarca absolutista, o sultão, considerado também califa (líder e protetor do Islã), o Império Turco Otomano era a maior potência muçulmana de sua época, embora a maioria de seus súditos nos Bálcãs fosse constituída por cristãos. Contudo, o expansionismo turco se esgotou no século XVII e, a partir do final do século XVIII, o Império Otomano entrou em processo de desintegração. O resultado foi a Questão do Oriente – as incertezas sobre o futuro do decadente Império Otomano (o “velho doente da Europa”) e os problemas internacionais que isso gerou. Diversos países balcânicos ficaram independentes com o triunfo de movimentos nacionalistas em violentos conflitos étnicos (Grécia em 1821-1830; Sérvia, Romênia e Montenegro em 1878; Bulgária em 1878-1908; e Albânia em 1912). Reformas modernizadoras foram tentadas na segunda metade do século XIX mas fracassaram. Ao mesmo tempo, as grandes potências europeias passaram a disputar os territórios turcos no Oriente Médio, no Norte da África e nos Bálcãs. A Rússia era a potência que mais ameaçava o Império Turco, com  pretensões de tomar Constantinopla e o Cáucaso, mas os otomanos acabaram perdendo territórios também para a França (Argélia, 1830; Tunísia, 1881), Grã-Bretanha (Egito, 1882), Áustria-Hungria (Bósnia, 1908) e Itália (Líbia, 1912). Os alemães estabeleceram uma missão militar para reorganizar o exército turco (1883) e, em troca de empréstimos ao governo otomano, obtiveram concessões (1899 e 1902) para construir a Ferrovia Berlim-Bagdá – na verdade, estender a ferrovia Berlim-Constantinopla para Bagdá e Basra, próxima do Golfo Pérsico. A penetração alemã no Império Turco Otomano e no Oriente Médio precipitou a aliança entre a Grã-Bretanha e a Rússia em 1907, simbolizada pela divisão da Pérsia (Irã) entre as duas potências.

A Índia

Até a década de 1940, o nome “Índia”, usado no Ocidente, referia-se a um território maior do que o da atual República da Índia (Bharat Juktarashtra). Além da Índia de hoje, incluía também o Paquistão, Bangladesh, Nepal, Butão e Sri Lanka, no total um território com cerca de 4,5 milhões de km2 constituindo o chamado “subcontinente indiano”. Em 1900, a sua população era de 300 milhões de pessoas. Nesse sentido de uma grande Índia, em meados do século XV não existia um povo ou nação indiana unificada. Na época, mais do que hoje, havia na Índia uma enorme diversidade étnica e cultural, com 1600 línguas e dialetos e 200 escritas diferentes. O país estava fragmentado politicamente em vários Estados, divididos em duas grandes zonas culturais: o norte islâmico e o centro e sul hinduísta. Nos séculos XV-XVII, os europeus (portugueses, holandeses, ingleses e franceses) estabeleceram feitorias no litoral da Índia, buscando o comércio de especiarias. A presença europeia ocorreu por meio de empresas mercantis – as Companhias das Índias Orientais. Destas, a mais importante, a longo prazo, foi a inglesa (EIC ou East Indian Company). Contudo, o fato mais marcante nesse período da história indiana foi, no início do século XVI, a invasão de um grupo turco-mongol muçulmano, originário do Afeganistão, que estabeleceu o Império Mughal no norte da Índia, com capital em Delhi. No século XVII, a maior parte da Índia ficou sob controle dos mughals. No entanto, em 1700-1760, o poder mughal declinou e os conflitos entre muçulmanos e hindus aumentaram. Os europeus começaram, então, a expandir a sua influência na Índia. França e Grã-Bretanha disputaram o controle da costa leste do país e fizeram alianças com os monarcas e as elites indianas. Na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) os britânicos derrotaram os franceses e a Grã-Bretanha (a EIC) virou a potência hegemônica na Índia.
A conquista britânica (1760-1850). Entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, a Grã-Bretanha, por intermédio da EIC, conquistou grande parte da Índia, que se transformou na principal colônia do seu império. A expansão britânica partiu do litoral leste e, principalmente, do nordeste (região de Bengala, que incluía o atual Bangladesh), onde estava situada a capital colonial, Calcutá.  Em 1804, o imperador mughal Shah Alam II aceitou formalmente a proteção da EIC. No ano seguinte, o exército mughal foi dissolvido. O Estado mughal (chamado pelos britânicos de “Reino de Delhi”) continuou existindo, mas as áreas sob seu controle eram administradas, de fato, por britânicos (oficialmente como “servidores” do governo mughal). Com efeito, o domínio britânico se deu de forma direta sobre alguns territórios e em outros de forma indireta (Estados vassalos ou protetorados, governados por príncipes como os rajás hinduístas e os nababos muçulmanos, ou pelo monarca mughal). Parte das elites indianas aliou-se aos britânicos. Mercenários indianos hindus e muçulmanos conhecidos como cipaios foram incorporados ao exército colonial britânico (na década de 1850, eram 200 mil cipaios e 40 mil britânicos nas forças coloniais). Sob o colonialismo da EIC, principalmente na administração do governador-geral Marquês de Dalhousie (1848-1856), a Índia começou a ser parcialmente modernizada (ferrovias, sistema postal, telégrafo). Contudo, a anexação de principados autônomos, o conflito cultural (hábitos e valores ocidentais chocavam-se com os costumes hindus e islâmicos), a taxação excessiva dos camponeses e a ruína do artesanato local diante da concorrência dos produtos industriais da metrópole causaram muita insatisfação entre diversos setores da população indiana.
A Revolta dos Cipaios: o Grande Motim Indiano (1857-1858). Na década de 1850, a insatisfação com a dominação britânica espalhou-se também entre parte dos cipaios. Em 1857, as tropas cipaias do norte e centro da Índia rebelaram-se. O motim obteve a adesão de príncipes e da população civil. O último imperador mughal, Bahadur Shah também apoiou a revolta e formalmente assumiu sua liderança. Massacres foram praticados pelos dois lados. Contudo, o fraco comando dos rebeldes, a sua escassez de recursos, a falta de apoio de outras partes do país e a organização superior dos britânicos resultaram no fracasso da rebelião, sufocada em 1858 pela EIC com ajuda de nativos sikhs e gurkhas. Como conseqüência da rebelião, que teve pelo menos 100 mil mortos, a monarquia mughal foi abolida (Bahadur Shah foi exilado na Birmânia) e a Grã-Bretanha consolidou o seu domínio colonial. Mas a EIC perdeu o controle sobre a Índia, que passou a ser exercido pelo governo britânico.
O Raj (1858-1947). Sob a administração colonial do Estado britânico, a Índia foi oficialmente chamada de Império Indiano, Raj Britânico ou, simplesmente, Raj (do sânscrito raja: “rei”). O governo colonial era exercido por um Vice-Rei. Em 1877, a rainha Vitória assumiu o título de “Imperatriz da Índia”. O Raj era composto pela atual Índia, Paquistão, Bangladesh, Birmânia e partes da Península Arábica. O Sri Lanka (Ceilão) era uma colônia separada. O Nepal e Butão continuaram sendo Estados independentes sob influência britânica. A capital do Raj ficou em Calcutá (transferida em 1912 para Nova Delhi). O sistema de dominação direta e indireta foi aperfeiçoado: 60% do território indiano eram diretamente governados pelos britânicos e 40% por príncipes com autonomia para tratar dos seus assuntos domésticos (eram aproximadamente 700 principados aliados da Grã-Bretanha). O exército colonial continuou utilizando cipaios, mas o número de britânicos aumentou (em 1914 de 155 mil soldados, 65 mil eram britânicos). A modernização do país foi acelerada e a agricultura comercial avançou, mas a produção artesanal permaneceu em agudo declínio diante dos têxteis britânicos importados. Em parte por causa da alteração das estruturas agrárias tradicionais e da elevação das taxas sobre os camponeses, o que reduziu as reservas de alimentos da população pobre rural, mas também em grande medida por causa das secas, a fome assolou a Índia em 1876-1879 e 1896-1902, matando entre 12 milhões e 30 milhões de indianos.
O Raj era a colônia mais importante da Grã-Bretanha, mas, devido ao tamanho da sua população, ela não comportou o tipo de povoamento por imigrantes britânicos como o que ocorreu no Canadá, Austrália, Nova Zelândia ou mesmo na África do Sul. Na verdade, de uma forma geral, a metrópole preservou grande parte das culturas nativas e estimulou as diferenças entre hindus e muçulmanos, seguindo a estratégia de “dividir para reinar”.

A China

Nas Idades Média e Moderna, o Império Chinês era o mais rico e poderoso dos reinos orientais. Até o início do século XIX, o Estado chinês (um regime despótico dirigido por uma poderosa burocracia, encabeçado pela dinastia Manchu ou Qing, 1644-1912) se manteve relativamente isolado da Europa. A China possuía uma economia agrária pré-capitalista, com uma grande produção artesanal e manufatureira que a tornava em grande medida auto-suficiente. Seu comércio com a Europa tinha muitas restrições, limitado aos portos de Guangzhou (Cantão) e Macau (possessão portuguesa), e era superavitário – o país pouco importava dos europeus e acumulava prata usada pelos mercadores ocidentais para pagar as compras de chá, seda e porcelana chinesas. Os europeus procuraram compensar essas desvantagens com o contrabando de ópio, praticado principalmente pelos britânicos e seus associados chineses ligados à Companhia das Índias Orientais (a maior parte do ópio vinha da Índia).
A Guerra do Ópio (1839-1842). O crescimento do contrabando de ópio na década de 1830 trouxe vários problemas para a China, como o aumento do número de viciados e da corrupção em Cantão (funcionários envolvidos no contrabando), e a perda de prata, usada para comprar ópio. O imperador Daoguang (1820-1850) reagiu intensificando a repressão ao contrabando, o que prejudicou os interesses da EIC e causou um conflito armado com a Grã-Bretanha. Na consequente Guerra do Ópio a China foi derrotada e obrigada a assinar o Tratado de Nanjing ou Nanquim (1842): Hong Kong foi cedida aos britânicos (devolvida à China em 1999) e outros portos foram abertos ao comércio internacional.
A dominação estrangeira na segunda metade do século XIX. A Guerra do Ópio iniciou não apenas a abertura comercial chinesa mas a fase do imperialismo ocidental (e depois japonês) na China, caracterizado pelos tratados desiguais (desvantajosos para os chineses) e pela divisão do país em áreas de influência (dominação) estrangeira. A penetração ocidental enfraqueceu o Estado chinês e, junto com o agravamento dos problemas sociais e econômicos do país, desencadeou a Rebelião Taiping (1850-1864), uma gigantesca revolta camponesa contra a monarquia Qing. Com dificuldade e ajuda do Ocidente (que temia o colapso da autoridade e o caos político na China), os Qing reprimiram o movimento, mas ficaram mais debilitados. Em uma Segunda Guerra do Ópio ou Guerra do Arrow (1856-1860), agora contra a Grã-Bretanha e França, a China foi novamente derrotada e obrigada a fazer mais concessões. Uma tentativa de modernizar o país com reformas limitadas que deveriam fortalecer o Estado fracassou (o Movimento do Auto-Fortalecimento 1865-1890). Na mesma época, o Japão adotou com sucesso um projeto mais radical com objetivos semelhantes e, fortalecido, lançou-se contra a China. Na Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), os chineses foram derrotados pelos japoneses, que tomaram Taiwan e começaram a exercer uma crescente influência sobre a Coréia e a Manchúria. A expansão japonesa desencadeou a Partilha das Concessões (1896-1899) – a divisão da China em zonas de influência entre as potências europeias. A monarquia Qing, na prática, tinha perdido a soberania sobre a China, que virou uma semi-colônia europeia e japonesa.
A Revolta dos Boxers (1899-1900). A humilhante dominação estrangeira resultou no crescimento da xenofobia e do nacionalismo entre os chineses. Organizações secretas foram criadas com a intenção de expulsar os ocidentais e os japoneses do país. Entre elas a dos Boxers (“Lutadores dos Punhos Sagrados”), que lideraram em 1899-1900 uma grande revolta popular contra os estrangeiros. A Revolta dos Boxers foi inicialmente também voltada contra os Qing mas a imperatriz Cixi (1861-1908), buscando sustentação popular, apoiou os revoltosos e entrou em guerra com as potências imperialistas. Contudo, a maioria dos governadores provinciais não aderiu ao movimento, que acabou sendo sufocado pelas forças ocidentais e japonesas.A derrota chinesa ampliou o controle estrangeiro no país e o apoio interno aos Qing desapareceu completamente. Mas as rivalidades e divergências entre as potências impediram que elas dividissem totalmente a China entre si e acabassem com o Estado chinês. De fato, na mesma época, os EUA (presidente William McKinley, 1897-1901, e seu Secretário de Estado John Hay) propuseram a Política de Portas Abertas para as relações entre a China e o mundo – o livre-comércio e a igualdade de condições nas concessões chinesas.
A crise da monarquia chinesa. No início do século XX, a monarquia dos Qing ficou mais isolada e perdeu sua legitimidade. A derrota para as potências imperialistas durante a Revolta dos Boxers, o avanço da dominação estrangeira, problemas financeiros, a corrupção da Corte e do sistema imperial como um todo e a expansão das doutrinas políticas ocidentais (nacionalismo, liberalismo, democracia, socialismo). A oposição dos intelectuais dissidentes cresceu, sobretudo nas elites urbanas. Em 1905, um desses opositores, Sun Yat-sen, fundou a Tongmenghui ou Aliança Revolucionária Chinesa que defendia uma república baseada nos “Três Princípios do Povo”: nacionalismo, democracia e bem-estar social. Essa organização originou, em 1912, o Partido Nacionalista ou Guomindang (Kuomintang – KMT), o principal partido político da China até a década de 1940.
A Revolução Chinesa de 1911. A dinastia Qing tentou novamente fazer algumas reformas, mas elas foram insuficientes e por demais tardias. A crise do regime monárquico atingiu o ápice em 1911. Em outubro, em meio a motins do exército, eclodiu a revolução republicana sob a liderança da Aliança Revolucionária Chinesa. O último imperador, Puyi, abdicou em fevereiro de 1912. No entanto, Sun Yat-sen não conseguiu apoio suficiente dos militares para chefiar o governo, que foi assumido pelo general Yuan Shikai (presidente 1912-1915). Um parlamento foi criado (o KMT era o partido mais importante) em uma estrutura política inspirada no liberalismo. Mas a jovem república nasceu mergulhada em problemas de solução difícil, ao menos a curto e médio prazo, como a crise financeira, a dominação estrangeira e a ascensão de governadores independentes em várias províncias. O próprio Shikai, de comportamento autoritário, entrou em conflito com o Parlamento e o KMT. Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, ele restaurou a monarquia e tentou governar como imperador até ser assassinado (1916). A China ficou, então, fragmentada politicamente nas mãos de chefes militares conhecidos como os “Senhores da Guerra”. Somente a partir do final da década de 1920, uma ordem centralizada começou a emergir no país sob a direção do sucessor de Sun Yat-sen (que morreu em 1925), Chiang Kai-shek.

O Japão

Na primeira metade do século XIX, o Japão vivia sob uma espécie de feudalismo, com uma monarquia fraca (embora o imperador fosse considerado divino) e uma classe dominante de senhores feudais, os daimios – a famílias nobres dos guerreiros samurais. O poder central, na prática, estava com o xogun (generalíssimo ou comandante militar supremo), cargo que, desde 1600, era ocupado pelos Tokugawa, uma destacada família da nobreza japonesa. Com apoio dos daimios, o xogunato mantinha o país fechado e sem contatos com o Ocidente desde o século XVII, por temer que a influência ocidental abalasse as estruturas tradicionais de poder. O comércio internacional era quase inexistente e muito controlado. O Japão conseguiu preservar suas tradições culturais mas o país ficou tecnologicamente atrasado, não conseguindo acompanhar o desenvolvimento econômico do Ocidente gerado pela Revolução Industrial. Esse atraso deixou os japoneses em desvantagem militar e impediu que eles resistissem às pressões do imperialismo ocidental nas décadas de 1850 e 1860.
A abertura do Japão (1854-1867). O isolamento do Japão foi rompido pelos EUA, em 1853, com a chegada de uma esquadra americana comandada pelo comodoro Mattew Perry, que exigiu das autoridades japonesas o direito de usar alguns portos do Japão. Em março de 1854, o Japão assinou o Tratado de Kanagawa, que abriu dois portos ao comércio com os EUA. Nos anos seguintes, outros tratados semelhantes foram assinados com as potências europeias. As elites japonesas sentiram-se ameaçadas pelos tratados comerciais e pelos estrangeiros. Em 1863-1864 alguns daimios e seus samurais entraram em confronto com os americanos, britânicos, franceses e holandeses e, em represália, cidades japonesas foram bombardeadas pelos navios ocidentais. Os xoguns, impotentes para enfrentar os estrangeiros, perderam prestígio. Disputas entre daimios rivais e revoltas de samurais marcaram os anos de 1864-1867, deixando o país praticamente em guerra civil. Um grupo de nobres e mercadores passou a defender a modernização do Japão para salvá-lo da dominação ocidental Esse grupo aproximou-se da corte imperial e começou a agir para fortalecer a monarquia. Em novembro de 1867, o último xogun, Keiti, renunciou, pondo fim ao xogunato.
A Revolução Meiji (1868-1889). Meiji (“luzes”) foi o nome do reinado do imperador Mutsuhito (1867-1912), que liderou a Revolução ou Restauração Meiji, o movimento político que iniciou a construção do Japão moderno. A Revolução Meiji foi uma “revolução pelo alto” – uma revolução feita pelo governo e por setores da classe dominante, com apoio dos comerciantes, que eliminou a antiga estrutura feudal japonesa e fortaleceu o Estado com a intenção de modernizar o país no sentido do desenvolvimento industrial e capitalista. Principais medidas: (I) fortalecimento da monarquia; (II) abolição do feudalismo: os feudos foram transformados em distritos administrativos; os camponeses deixaram de pagar taxas para os nobres, passando a pagá-las para o Estado, que aumentou os seus recursos; os daimios passaram a receber pensões do governo; a ordem dos samurais foi eliminada (que reagiram com a Rebelião de Satsuma, em 1877, sufocada); (III) maior contato com o exterior: o comércio internacional foi incentivado, o governo contratou assessores ocidentais e enviou japoneses para estudarem no exterior e conhecerem as técnicas e os métodos administrativos, econômicos e militares do Ocidente; (IV) modernização das forças armadas, do ensino e da justiça: baseadas em modelos europeus; (V) criação do Banco do Japão: captou recursos e poupança que auxiliaram no financiamento da industrialização; (VI) industrialização do país: inicialmente promovida pelo Estado com recursos públicos, posteriormente as indústrias foram privatizadas e transferidas para os daimios e burgueses, formando os zaibatsu (as poderosas corporações empresariais); e (VII) Constituição de 1889: o Japão tornou-se uma monarquia parlamentar.
O imperialismo japonês. A Revolução Meiji modernizou e industrializou o Japão, transformando-o numa potência imperialista capaz de disputar com o Ocidente territórios no Extremo Oriente, principalmente na China. Como foi dito acima, os japoneses venceram a Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) e ocuparam parte da China. A ascensão do Japão levou-o a entrar em confronto com a Rússia, outra potência em expansão no norte do Pacífico. Os dois países passaram a disputar o controle da Coréia e da Manchúria, o que deflagrou a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905). O Japão derrotou a Rússia (a primeira vitória de um país asiático sobre uma potência europeia “superior”) e, pelo Tratado de Portsmouth (1905), ele adquiriu o sul das ilhas Sakhalinas, o estratégico Porto Arthur (norte da China) e o protetorado sobre a Coréia e a Manchúria meridional. Em 1910, ele anexou a Coréia.

O imperialismo em outros países da Ásia e na Oceania

A Holanda começou a dominar a Indonésia (as Índias Orientais Holandesas) no século XVII, e no início do século XIX completou a conquista desse arquipélago, de maioria muçulmana, rico em recursos naturais (borracha, petróleo). A França conquistou a Indochina (Vietnam, Camboja e Laos) na segunda metade do século XIX. A Birmânia foi conquistada pela Grã-Bretanha depois de três guerras entre 1824 e 1886. A Tailândia, reino no sudeste asiático entre a Birmânia britânica e a Indochina francesa, manteve sua independência como um “Estado-tampão” separando as duas potências europeias. As Filipinas foram ocupadas inicialmente pela Espanha e, no final do século XIX, pelos EUA, que a tomaram dos espanhóis na Guerra Hispano-Americana (1898). O domínio americano foi consolidado depois que a revolta anticolonial dos nacionalistas filipinos foi derrotada na violenta Guerra Filipina (1899-1902) O Havaí também foi anexado pelos EUA em 1898. A Rússia conquistou a Ásia Central na segunda metade do século XIX. A Austrália foi colonizada a partir do final do século XVIII e a Nova Zelândia a partir do início do século XIX. Ambas receberam grandes contingentes de imigrantes britânicos, que se apossaram de terras dos aborígenes australianos e dos maoris neozelandeses. Junto com o Canadá e a África do Sul, a Austrália, em 1901, e a Nova Zelândia, em 1907, adquiriram o status de Domínios – países com certo grau de autogoverno (tendo seu próprio parlamento e primeiro-ministro), mas devendo aliança à Coroa britânica.

2.3 O imperialismo na África

O Norte e Nordeste da África

Até o início do século XIX, a maior parte da África do Norte era parte do Império Turco Otomano (Egito, Líbia, Tunísia e Argélia, províncias com grande autonomia). O Marrocos era um reino independente. Enquanto toda a África do Norte era muçulmana, no nordeste africano, a Etiópia (Abissínia) possuía um dos mais antigos reinos cristãos do mundo. Com exceção de algumas cidades marroquinas controladas pela Espanha, nessa época os europeus não possuíam colônias na região (a tentativa francesa de dominar o Egito, em 1797-1802, iniciada por Napoleão Bonaparte, fracassou, assim como a expedição britânica de 1807). Contudo, a partir de 1830, com o declínio otomano, as potências ocidentais começaram a se apropriar de territórios norte-africanos movidas por questões de segurança (combater a pirataria no Mediterrâneo) ou estratégico-econômica (controlar rotas comerciais, obter terras para agricultura).
A França conquista a Argélia (1830-1847). A Argélia transformou-se na principal colônia da França.Ocorreu um intenso povoamento francês nas terras da costa mediterrânea argelina, causando tensão com a população nativa (árabe-berbere muçulmana). Nesse contexto foi criada Legião Estrangeira, força militar com mercenários e condenados, encarregada de sufocar rebeliões e expandir o domínio francês. A França conquista a Tunísia (1881). A Tunísia era uma província autônoma do Império Turco Otomano, governada pelos Husseins, uma dinastia de beys ("chefes" ou "governadores"). França, Itália e Grã-Bretanha passaram a disputar a influência no país, que nas décadas de 1860 e 1870 ficou endividado com empréstimos estrangeiros para projetos fracassados de modernização. As dificuldades financeiras do bey e  um ataque de tribos tunisianas à Argélia serviram de pretexto para a França, em 1881, ocupar a Tunísia, que foi transformada um em protetorado francês.
A Grã-Bretanha ocupa o Egito (1882). O Egito é o país mais rico do Norte da África e é também o mais populoso país árabe, posição que já ocupava no início do século XIX. Nessa época, o governo egípcio estava teoricamente subordinado ao Império Otomano mas na prática, como a Tunísia, ele possuía uma grande autonomia. Entre 1820 e 1840, o poderoso pasha Muhammad Ali (1805-1848) construiu um império que incluía o Sudão, a Síria, a Palestina, parte da Arábia Saudita e Creta, transformando o Egito em uma das grandes potências do Mediterrâneo Oriental. Em 1859-1869 os franceses construíram o Canal de Suez, ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho e ao Índico, encurtando o caminho entre a Europa e a Ásia. O governo egípcio era o maior acionista do Canal, seguido pela França. Mas dificuldades financeiras (gastos excessivos na tentativa de modernizar o país) levaram o Egito a vender suas ações para a Grã-Bretanha. O controle estrangeiro sobre o Canal e a crescente presença de ocidentais causou um grande ressentimento entre os egípcios, sobretudo entre os militares nacionalistas. Distúrbios populares anti-ocidentais estouraram em 1881-1882. Temendo perder o controle sobre o Canal, a Grã-Bretanha invadiu o Egito em 1882 e ocupou o país, transformando-o em um protetorado.
A intervenção britânica no Sudão e a crise anglo-francesa (1882-1898). O Sudão era controlado pelo Egito. Em 1882 estourou um levante de fundamentalistas islâmicos sudaneses, liderados por Muhammad Ahmed, o Mahdi (espécie de messias muçulmano), que pregou a guerra santa contra os egípcios. Uma expedição militar anglo-egípcia foi enviada ao Sudão e, depois de uma difícil campanha, derrotou os mahdistas. O Sudão foi transformado em um “condomínio” anglo-egípcio. Contudo, nessa época, os franceses estavam tentando se estabelecer em território sudanês. Tropas francesas e britânicas ameaçaram entrar em confronto na localidade de Fashoda, em 1898, e Grã-Bretanha e França ficaram à beira de uma guerra (crise de Fashoda). As duas potências fizeram um acordo (a Entente anglo-francesa) e dividiram a região, evitando um conflito militar.
A Itália tenta conquistar a Etiópia (1895-1896). Unificada recentemente, a Itália adotou um imperialismo “tardio” na busca por colônias. Afastados da Tunísia pela França (1881), os italianos estabeleceram uma colônia na Eritréia (1882-1890), transformaram a Etiópia em um protetorado – ou pensaram ter feito isso em 1889 – e anexaram parte da Somália (1889). Entretanto, o novo imperador da Etiópia, Menelik II (1889-1913), cancelou o tratado do protetorado italiano, levando a Itália a invadir o país. A conseqüente Guerra Ítalo-Etíope (1895-1896) foi um desastre para os italianos que, derrotados, tiveram que reconhecer a soberania da Etiópia.

A África Negra

A África Negra (ou Subsaariana) foi até o início do século XIX fornecedora de escravos para a América. O tráfico negreiro, junto com o comércio de especiarias, era a principal atividade dos europeus na época. Por volta de 1820, pequenos estabelecimentos europeus tinham sido criados no litoral da África Negra, principalmente na costa ocidental, mas, com exceção de alguns núcleos de povoamento português em Angola e Moçambique, e anglo-holandês na África do Sul, não havia ainda uma colonização propriamente dita. Com o avanço do liberalismo e do capitalismo na Europa, a escravidão perdeu importância e passou a ser combatida, levando à extinção do tráfico de escravos. Por sua vez, o desenvolvimento industrial aumentou a procura de matérias-primas e o avanço da ciência possibilitou a criação de vacinas e remédios que possibilitaram enfrentar as doenças tropicais. O trabalho de missionários cristãos e de exploradores cresceu em 1820-1880, aumentando os conhecimentos sobre a geografia, os povos e as riquezas (reais ou potenciais) da África Negra, e abriu o caminho para a colonização da região – a “corrida pela partilha do continente negro”. Em 1914, praticamente toda a África estava dividida entre as potências europeias (apenas a Etiópia e a Libéria eram Estados efetivamente independentes). Nesse processo, as colônias criadas desprezaram as fronteiras étnicas e históricas africanas, misturando povos diferentes ou dividindo um mesmo povo entre duas ou mais potências, resultando em graves problemas para a construção dos Estados nacionais na época da descolonização (período pós-1945).
A conquista britânica da África do Sul (1814-1902). No século XVII, os holandeses estabeleceram uma colônia na extremidade meridional da África do Sul, a Colônia do Cabo. O povoamento holandês cresceu no século XVIII com a chegada de novos imigrantes, inclusive alemães e franceses, formando a comunidade dos bôeres ou africânderes (a população branca descendente dos europeus, principalmente dos holandeses). Em 1814, a Grã-Bretanha assumiu o controle da Colônia do Cabo. Muitos bôeres não aceitaram ficar sob o domínio britânico e, em 1836-1837, migraram para o interior e norte da África do Sul (a Grande Jornada ou Great Trek). Depois de lutarem contra os zulus, os bôeres criaram as repúblicas de Natal (anexada pelos britânicos em 1843), Orange e Transvaal. A descoberta de ouro atraiu mais imigrantes e a Grã-Bretanha anexou o Transvaal (1877). Em 1879, os britânicos venceram os zulus (Guerra Anglo-Zulu) e ampliaram seu domínio na região. Contudo, os bôeres fizeram um levante contra os britânicos e o Transvaal recuperou sua independência (Primeira Guerra dos Bôeres, 1880-1881). Novas descobertas de ouro na região e divergências entre britânicos e bôeres precipitaram outra guerra, mais importante do que a anterior – a Guerra Sul-Africana ou Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902). Com muita dificuldade, os britânicos venceram a guerra e anexaram o Transvaal e Orange. Os territórios sul-africanos formaram a União da África do Sul (1910), com status de Domínio (autogoverno).
A Conferência de Berlin (1884-1885). O crescente interesse das potências europeias por territórios na África Negra, na segunda metade do século XIX, criou vários atritos entre elas. As regiões mais disputadas eram a África Central e Ocidental, sobretudo o território ao longo do rio Congo, explorado pelo missionário David Livingstone em 1865-1870 e pelo jornalista Henry Stanley em 1874-1884. O rei Leopoldo II da Bélgica, em especial, criou uma empresa, estabeleceu postos comerciais no Congo e buscou o reconhecimento internacional de seus direitos na região (Stanley trabalhou para ele em 1879-1884). Como a França, a Alemanha, a Grã-Bretanha e Portugal também possuíam interesses no Congo e em suas vizinhanças, a questão adquiriu grande relevância internacional. Para solucionar esse problema e outras disputas, as potências reuniram-se na Conferência de Berlim, organizada por Bismarck, o chanceler da Alemanha. Entre as principais decisões da Conferência destacaram-se: (I) o reconhecimento do Congo como possessão pessoal do rei Leopoldo II, na forma do “Estado Livre do Congo”; (II) a garantia da livre navegação nos rios Congo e Níger; (III) combater a escravidão e o tráfico de escravos; (IV) a reivindicação de um território por uma potência só poderia ser feita se ele estivesse efetivamente ocupado por ela. A exploração colonial dos povos do Congo por Leopoldo II foi tão brutal que causou repúdio internacional e chocou os belgas. Em 1908, o governo belga assumiu o controle da colônia.
Outras possessões européias na África Negra. A França dominou um enorme território no noroeste da África (a África Ocidental Francesa) que incluía, entre outros países, o Senegal. A ilha de Madagascar, no Índico, também era possessão francesa. Angola e Moçambique foram colonizadas por Portugal. A Alemanha dominou a Namíbia (África do Sudoeste), a Tanzânia (África Oriental Alemã), o Togo e o Camarões. A Grã-Bretanha também colonizou a Nigéria, o Quênia, a Rodésia (Zimbabwe) e a Zâmbia.